Buscar:

Centralidade no Cliente como Bússola Estratégica: uma reinvenção necessária no mercado de seguros

Imprimir PDF
Voltar

ibmec

Por Samuel de Jesus Monteiro de Barros

samuel barros

Se há um setor que está aprendendo que não dá para segurar o futuro com apólices do passado, é o de seguros. Em 2025, o mercado brasileiro vive uma verdadeira metamorfose, impulsionada por transformações tecnológicas, mudanças regulatórias e, acima de tudo, pela exigência de colocar o cliente no centro da estratégia. E não, isso não significa apenas trocar o café da recepção por cápsulas gourmet.

A Lei 15.040/2024, conhecida como o novo Marco Legal dos Seguros, entra em vigor em dezembro de 2025 e vai reorganizar o setor com mais clareza, previsibilidade e segurança jurídica. Pela primeira vez, contratos de seguros terão regras próprias, com prazos máximos para aceitação de propostas (25 dias) e pagamento de sinistros (30 dias), além de linguagem acessível e proteção ao consumidor em caso de dúvida contratual.

Essa nova legislação não é apenas uma formalidade jurídica. Ela é um convite, ou melhor, uma convocação, para que as seguradoras repensem seus modelos de negócio. Afinal, como bem se sabe, não adiantará ter um sistema de IA que prevê sinistros se o cliente ainda precisar imprimir três vias para pedir reembolso de um pneu furado.

A centralidade no cliente deixa de ser um jargão corporativo para se tornar um imperativo estratégico. O relatório "Next in Insurance" da PwC aponta que as seguradoras precisam colocar os clientes, e não produtos, canais ou países, no centro de tudo, especialmente em momentos-chave da vida. Isso significa oferecer soluções que vão além da cobertura tradicional, como prevenção de riscos, assistência personalizada e experiências digitais fluidas.

Exemplos práticos não faltam. A Pier Seguradora, uma das pioneiras em seguros digitais no Brasil, utiliza inteligência artificial para realizar reembolsos em menos de um segundo em cerca de 30% dos sinistros de seguro celular. Já a nstech, focada em transporte, oferece uma plataforma integrada que automatiza toda a jornada de seguro, da cotação à auditoria, com clientes como Akad, Chubb e Tokio Marine.

Essas inovações não são apenas tecnológicas, são estratégicas. Segundo a Deloitte, 76% das seguradoras globais já exploram IA generativa e dados alternativos, como hábitos de consumo e mobilidade, para personalizar ofertas e prever riscos. No Brasil, parcerias com fintechs e startups tem potencial de acelerar essa transformação no setor.

Mas nem tudo são algoritmos e dashboards. A experiência humana continua insubstituível. Como destaca a CNseg, mesmo com R$ 19,6 bilhões investidos em inovação entre 2023 e 2024, o atendimento empático e o suporte em momentos críticos ainda são decisivos para fidelizar clientes. Afinal, ninguém quer ser atendido por um robô quando está preso no elevador e precisa acionar o seguro predial ou residencial.

A digitalização também está mudando a forma como os profissionais atuam. Modelos de trabalho sob demanda, como o da Sky Seguradora, permitem que consultores atuem de forma autônoma e digital, com ganhos recorrentes vinculados à carteira de clientes. É a "uberização" do seguro, com liberdade, flexibilidade e, claro, a responsabilidade de manter o cliente satisfeito sem precisar de um GPS para encontrar a apólice.

E por falar em satisfação, a Brasilseg, do grupo BB Seguros, criou a Diretoria de Clientes e Plataformas Digitais e implementou o programa "Voz do Cliente", com squads multidisciplinares focados em jornadas específicas. O resultado? Queda de 40% nas reclamações e aumento de 11 pontos no NPS Relacional.

A nova base legal também reforça o papel da Susep como reguladora, com foco em transparência e equilíbrio contratual. A autoridade poderá fixar prazos maiores para seguros complexos, mas sempre com o objetivo de garantir que o produto funcione quando o cliente mais precisa. Como a Susep tem reiterado, o seguro existe para o segurado ter acesso no momento que mais precisa.

O mercado de seguros está deixando de ser um castelo de cláusulas para se tornar uma ponte de confiança. A tecnologia é o motor, mas o cliente é o combustível. E como toda boa viagem, é melhor que o GPS esteja calibrado ou, no caso, que o chatbot saiba diferenciar um sinistro de um simples mau humor matinal.

Porque no fim das contas, o futuro do seguro não está apenas em prever riscos, mas em entender pessoas. E isso, felizmente, ainda não será substituído por nenhum algoritmo.

(03.12.2025)